Juros não sobem no governo Dilma, afirma economista

Para Nicola Tingas, da Acrefi, governo poderia criar ambiente para ter taxa Selic próxima da inflação corrente, e não acima


Danielle Brant- iG São Paulo |

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Para Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, economia só decola mesmo em 2014

O governo brasileiro deve pensar em criar um ambiente para ter juros de 5% a 6%, ou seja, uma Selic próxima da inflação corrente, e não acima. A afirmação é do economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas, que acredita que a primeira condição para isso é o estabelecimento de um mercado de capitais de longo prazo, assim como o uso de instrumentos macroprudenciais, como restrição de crédito, para impedir uma escalada dos preços.
“Isso é uma premissa teórica, uma especulação minha, mas acho que estaria dentro da linha de pensamento do governo. Eu acredito que até o fim do governo Dilma os juros não sobem”, afirma Tingas. Esse ambiente de juros baixos, na opinião do economista, não teria impacto sobre o PIB potencial, pois, embora os empresários possam se beneficiar das taxas menores para comprar equipamentos com prazos mais alongados, a decisão de investir dependeria mais da conjuntura econômica do que dos juros.


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Também não afetaria a inflação, pois o Banco Central já mostrou disposição para atuar por meio da restrição da oferta de crédito, da redução dos custos e desoneração de folha de pagamentos, em vez de usar os juros para regular o consumo. “Se a gente olhar nos últimos anos, um aumento de taxa de juros praticamente teve um efeito muito baixo com relação à oferta de mais de crédito”, ressaltou. Por isso, para ele, não seria eficiente usar os juros para promover uma retomada econômica. “Você pode deprimir a atividade ainda mais em um momento em que você quer uma recuperação”, comenta.
Diante desse contexto, Tingas vê o Banco Central mantendo a Selic estável durante todo o ano de 2013, enquanto a retomada do crescimento brasileiro exigiria esforços no sentido de diminuir o chamado Custo Brasil, como tem acontecido recentemente com as atuações sobre as tarifas de energia. “O que tem marcado a conjuntura é a falta do dinamismo da recuperação econômica, associada à questão do investimento e também à tentativa de criar um acréscimo de crescimento através do consumo pura e simplesmente. Precisamos de investimentos, precisamos de aumento de produtividade, redução de custos”, analisa.


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“O Brasil está devendo alguma coisa. O crescimento brasileiro é um dos piores da América Latina toda e entre os emergentes, segundo algumas análises. Como diriam os americanos ou os ingleses, o que está faltando?”, questiona. “As questões estruturais do Brasil permanecem atrasadas, sem solução satisfatória ou encaminhamento satisfatório. Muita coisa está sendo encaminhada, mas ainda aquém da velocidade nem intensidade necessária. Esse é o grande dilema brasileiro”, ressalta o economista.
Tingas avalia que parte do problema seria amenizada com um processo regulatório mais claro, enquanto as ações pontuais de curto prazo – como a queda-de-braço pela redução das tarifas de energia e o spread bancário – são “bem-vindas” num cenário de reversão anticíclica, mas “não podem ser só essas”. “Não adianta só crescer no curto prazo. Precisamos construir uma economia que é capaz de crescer para valer no médio e longo prazo, melhorar o PIB potencial, com qualidade”, diz. “O que falta é a sinalização de um contexto mais dinâmico de médio e longo prazo, e criar condições para isso. Nesse momento a gente deveria estar acreditando em um PIB (Produto Interno Bruto) de 4%, 4,5%, e não estar discutindo se ele vem ou não”, afirma.


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Apesar de essas condições ainda não estarem dadas, a economia deve apresentar no próximo ano resultados melhores do que neste, na opinião de Tingas. “É um contexto onde você tem um ano de 2013 de melhora, mas ainda de incerteza sobre com que velocidade vem essa melhora. Eu acho então que o foco maior é olhar mais adiante, até 2014, porque parece que 2013, por melhor que seja, vai ser mais um ano de transição”, complementa.



Crise

O crescimento brasileiro também estará sujeito aos humores externos, principalmente pelo impasse em torno do “abismo fiscal” dos Estados Unidos e pela crise da dívida soberana europeia. Em relação ao primeiro ponto, Tingas acredita em uma solução até o final do ano para a disputa gerada em torno da série de aumentos tributários e cortes orçamentários prevista para entrar em vigor em janeiro e que opõe democratas e republicanos.
De acordo com o economista, as crises Europeia e americana devem ser encaradas como uma crise do capitalismo financeiro, criada por uma alavancagem excessiva do sistema. “Nós só vamos começar a adequar isso à medida que a gente reduzir a alavancagem financeira e tratar de todo o estoque de ativos que estão recessivos ou inviáveis de serem materializados no curto prazo”, afirma. Isso passa pelo reconhecimento das perdas por parte dos bancos europeus, por exemplo.


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“O Fed (Banco Central americano) reconheceu mais de US$ 5 trilhões de dívidas podres até hoje para salvar o sistema financeiro americano. Já a Europa enfrenta o problema de evitar a quebra sistêmica de bancos e a queda de governos”, explica. Por isso, em vez de sanear o sistema bancário europeu, as ações do Banco Central Europeu (BCE) têm se pautado por resgatar as instituições financeiras e tentar arbitrar uma recapitalização negociada. A intenção, afirma, é manter o valor dos ativos, que não valem mais o que valiam. “Quer dizer, o que está se fazendo é evitar que alguns tomem prejuízo, mas uma grande maioria, que é a população, está tomando”, afirma.
A solução seria montar um arranjo institucional entre a Alemanha e todas as nações interessadas na construção do euro, que financiaram esse ambiente de moeda única e incluíram em um mesmo grupo países com condições financeiras desiguais, como Portugal e Grécia. “A Alemanha deveria bancar parte desse prejuízo, mas ela não quer bancar. Já que quer atuar num bloco desigual, ela (Alemanha) que arbitre as diferenças e banque esse lastro”, analisa.



Impacto no mercado de capitais

Um dos primeiros a sentir o impacto dessas turbulências externas é o mercado de capitais. E esse ambiente nublado “não autoriza grandes voos da Bolsa”. “É natural que a Bolsa tenha uma manifestação mais presente disso (dos reflexos da crise), porque a Bolsa reage muito no curto prazo e ela pode até antecipar um ciclo de recuperação longo, mas os sinais ainda são tênues”, diz. Segundo ele, com a questão da discussão microeconômica sobre regulação, fica uma dúvida sobre qual papel é melhor para compor a carteira dos investidores. “Mesmo os papéis de consumo, preferidos nos últimos anos, não são necessariamente a vedete.”


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Com relação ao câmbio, tudo aponta para uma faixa ascensional da moeda, que alguns empresários acreditam que pode chegar até R$ 2,40. “A questão é que o governo não pode nem deixar o câmbio valorizar demais nem desvalorizar demais. Se valorizar demais prejudica toda a conjuntura, a cadeia produtiva, a exportação, e se desvalorizar demais pega na inflação”, diz.

fonte: IG ECONOMIA

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