O LOBO FINANCEIRO



"O Lobo de Wall Street": de sexo a drogas, os mitos do mercado financeiro

 

Novo filme do cineasta Martin Scorsese escancara o mundo dos profissionais financeiros; economista André Perfeito aponta os erros da produção

 

Taís Laporta - iG São Paulo |
 
 
 
 
 
Acusado de glamourizar as fraudes do mercado financeiro, o novo filme do cineasta Martin Scorsese,“O Lobo de Wall Street” ("The Wolf of Wall Street", uma das apostas para o Oscar deste ano), foi também elogiado por mostrar um mundo de orgias, drogas e ostentação levado ao limite – e acobertado pelo crime.

Mas a produção que estreia no Brasil em 24 de janeiro também revela estereótipos atrelados ao mundo das finanças que quase nunca refletem a realidade, na opinião do economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito.

“O filme passa a impressão de que só há malucos no mercado financeiro. Ele até merece esta fama, pelas barbeiragens que tem feito", analisa. Por outro lado, observa o especialista, o longa-metragem denuncia a precarização dos valores éticos deste sistema.


Em seu quinto filme ao lado de Scorcese, o ator Leonardo DiCaprio encarnou o protagonista Jordan Belfort, dono da corretora americana Stratton Oakmont, que fez fortunas vendendo promessas de lucro fácil, manipulando ações e abusando da prática ilegal de comprar empresas que fizeram IPOs (oferta inicial de ações, em inglês).
 
Sem economizar nas cenas obscenas, o longa é inspirado na autobiografia do personagem, que cumpriu pena de três anos de prisão por seus crimes financeiros.


LEIA MAIS: DiCaprio interpreta fraudador do mercado financeiro em filme de Scorsese


Logo após o lançamento do filme nos Estados Unidos, a filha do sócio de Belfort, Tom Prousalis, acusou os produtores de glorificarem a ganância e o comportamento de psicopatas na história. Em resposta, DiCaprio, que também produz o filme, afirmou que o longa não teve intenção de defender, mas de acusar este universo. “A proposta do longa pode não ser entendida por alguns espectadores”, afirmou ao site da revista americana "Variety".

Uma série de mitos e verdades que reforça a imagem dos profissionais do mercado financeiro aparece na produção de Scorsese, com duração de quase três horas. Perfeito, da Gradual, comenta os principais deles.


As corretoras promovem orgias públicas

MITO: Um desfile de mulheres nuas e funcionários presenteados por prostitutas no próprio escritório, em pleno horário de trabalho, é um cenário completamente falso e até inviável no mundo empresarial, como destaca Perfeito. “Fazer sexo em público é crime e dá cadeia nos Estados Unidos. Se o telespectador acreditar que isso de fato aconteceu, está caindo em conversa de vendedor”, comenta.


O mercado financeiro perdeu credibilidade

VERDADE: O longa-metragem, de acordo com Perfeito, é prova de que o sistema financeiro atual passa a ser questionado em todo o mundo por seus excessos e tropeços, especialmente após a crise de 2008 que levou milhares à falência. “Não faz sentido uma corretora ganhar montanhas de dinheiro enquanto a economia de um país não evolui. Isso desperta a ideia de que o sistema financeiro não cria valor e tem uma cultura devotada a somente ganhar dinheiro”, diz. Para o economista, o filme tem o papel de denunciar o que a ganância pode criar neste sistema.


É fácil convencer clientes a comprar ações

MITO: O mercado financeiro quase sempre é movido por um clima de energia e excitação, reforça o especialista. Mas os brokers (corretores) não diferem de vendedores de carros e imóveis e costumam enfrentar adversidades como qualquer outro, o que não aparece no filme, afirma Perfeito. A estratégia de mirar em 500 alvos e convencer 30 deles é uma jogada antiga do mundo das vendas e que também funciona com as finanças. Mas profissionais talentosos também fazem diferença na área. “Há quem venda geladeira até para esquimó, e não é diferente na área financeira”.



Corretores ou brokers fazem promessas de lucros

MITO: “Não há como saber se uma ação vai crescer ou não no futuro”, observa Perfeito. Para o economista, os profissionais que vendem produtos financeiros não podem fazer promessas no Brasil, embora nada impeça que existam corretores de má-fé, omitindo informações relevantes. “Nosso mercado tem os analistas para comentar o mercado, mas não dá para fazer promessas de ganhos no futuro”, finaliza.


Executivos frequentam prostíbulos

VERDADE: Em uma cena, o longa se Scorcese evidencia a farra financeira dos executivos com as chamadas “casas de tolerância”, gastos bancados pela empresa. “Sabe-se que executivos de todos os estilos frequentam estes estabelecimentos, inclusive no Brasil, e isto não é prerrogativa apenas do mercado financeiro”, comenta Perfeito.


Uso de drogas melhora a produtividade e é disseminado

MITO: Segundo o economista da Gradual, o filme passa uma ideia errônea de que usar drogas no trabalho aumenta o rendimento e traz melhores resultados. “Não é assim como se pensa. O sujeito que cheira [cocaína] demais ou exagera com qualquer outra droga começa a pensar de forma errada e isso prejudica o trabalho, então ele começa a perder dinheiro”, afirma, dizendo que há casos isolados de profissionais que fazem isso, como em outras carreiras.
 
 
 
O mundo financeiro é envolto por mistérios
 
VERDADE: Existe um fascínio natural das pessoas em torno do mercado financeiro, na visão do economista da corretora. Isso se deve, segundo ele, a uma aura de mistérios que envolve este universo, dado que a mercadoria que o corretor vende ao cliente é o próprio dinheiro, e está atrelada à expectativa quanto ao futuro. “É preciso quebrar este mito e mostrar que não há segredos neste universo”, diz.

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