NATAL DOS MENOS FAVORECIDOS





E se o homem bomba se apaixonasse?

E se o homem bomba tivesse uma paixão súbita segundos antes de acionar o detonador preso ao próprio corpo? E se ele tivesse uma fração de segundos para decidir entre uma carnificina apoteótica e aquele sentimento indefinível e pouco confiável que brotou sei lá de onde depois de cruzar duas vezes com aquela mulher? E se ele deixasse o grão seco da dúvida aprofundar-se na terra molhada da sua própria alma? E se ele se perguntasse, ainda que timidamente, por quê?
O homem bomba decide dar mais uma volta no Mercadão – um dos mais importantes pontos turísticos da cidade. Um atentado naquele lugar chamaria a atenção do mundo inteiro, renderia meses de cobertura jornalística e mudaria completamente o jogo político em sua região. Mais do que isso, aquilo que ele estava prestes a realizar era um chamado, um dever, uma missão, um encontro com o deus que ele escolheu para amar, o único.
Mas ele deu mais uma volta. Viu crianças que corriam em volta de uma mesa, simulando uma perseguição policial; viu uma senhora de 80 anos experimentando pela primeira vez uma fruta exótica; sentiu o cheiro de um tempero familiar – o mesmo que sua mãe usava, com exagero, em muitos dos pratos que ela preparava; viu uma grávida sentada em um banco – provavelmente sentindo que o bebê estava adiantando-se à data prevista pelo doutor (Ou talvez, talvez, aquele bebê estivesse pressentindo algo, e quisesse, teimoso, sair do útero para ver um pouco do mundo lá fora).
O homem bomba tem certezas. E essas certezas não são tão frágeis ao ponto de se desmancharem em dramaturgia barata. O homem bomba foi treinado, preparado, está convicto e vai pro céu. Não tem criança, velhinha, tempero ou parto espontâneo capaz de mudar sua direção, sua diretriz, seu caráter. Ele vai se explodir – e com ele irão todas essas pessoas e a cultura ocidental e a burrice e a falta de fé e a opressão e a mentira das grandes corporações e o grande satã e aquela mulher que ele acaba de avistar outra vez.
E o homem bomba decide segui-la um pouco. Um minuto a mais não deve fazer grande diferença.
A mulher caminha distraída. Não, não, pensativa. Talvez, imagina o homem bomba, esteja remoendo algum problema doméstico. O que é um problema doméstico? – repete para o nada o sujeito que está prestes a acabar com todos os problemas domésticos daquela mulher e de todos naquele mercado.  
Talvez ela tenha um namorado simpático, um namorado canalha, talvez ela goste mesmo é de ficar sozinha. Talvez ela trabalhe bastante; talvez ela encontre a cura do câncer; talvez ela faça um bolo de cenoura maravilhoso. 
Talvez ela tenha uma música preferida; talvez ela tenha assistido o mesmo filme 15 vezes; talvez ela cuide sozinha de uma comunidade inteira de refugiados. Talvez ela tenha uma voz engraçada; talvez ela seja rouca; talvez ela sequer fale a mesma língua do homem bomba.
E já com a mão no detonador, ele se deixa levar por uma fantasia vergonhosa de namoro, casamento, cama macia, lençol branco, sexo consentido, sexo com sentido, crianças correndo em casa, paz, placidez, paraíso, o paraíso prometido para depois que ele transformar toda aquela gente em sangue, suor e tripas.  
Todos serão iguais quando só restar aquela bagunça de sangue, suor e tripas. 
E tem o barulho das sirenes, gritos de quem, por azar, sobreviver, o caos que vem depois, o choro dos parentes, a consternação falsa do apresentador de TV, as explicações políticas sociais e religiosas para a pura psicopatia de pessoas doentes.
O niilismo venceu. Ele vai se explodir…
Mas antes, segundos antes, decide perguntar o nome dela. Não sabe como abordá-la discretamente, respeitosamente ou de qualquer outro jeito decente. 
Lembra que nunca abordou uma mulher usando palavras como “por favor”, “senhorita”, “por gentileza”…
- Myrna. Meu nome é Myrna.
Ele sente algo explodindo dentro dele. Primeiro foi isso. Depois, teve um breve silêncio entre os dois. Olharam-se profundamente. Ela segurava um dispositivo na mão. Ele disse não. Ela cumpriu sua missão. E tudo se espatifou ao redor dos dois.
Foi ela quem explodiu o lugar.
(Thinkstock)

FONTE:

BLOG GILBERTO AMENDOLA



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